quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

Para sempre


Hoje fui ver o mar. Na realidade não ia vê-lo mas aproveitei. E à primeira impressão  eu via-o mas não o via, porque via dele apenas a realidade imediata em ondas e espuma. Foi preciso que deixasse vir ao de cima o que oculto se me queria revelar. Abandonei-me a ele e deixei. Mas o que então se me revelou foi uma nebulosa confusa de emoções , memórias, associações indistintas, qualquer coisa que se anuncia como numa casa desabitada. O indizível. O flagrantemente presente e que se não acaba de esclarecer. O estranho que nos perturba e não sabemos de onde vem. A praia estava deserta e o mar convulsionava-se num mundo ainda por nascer (...) Eu podia enumerar todos os elementos do que presenciava, mas havia outra realidade que ficava intacta à minha enumeração. Essa, essa - dizê-la. Não é aí precisamente que começa o "escrever bem"? Por isso a escrita não tem que ver com o real mas com o outro real dela. (...) Há no homem o insondável da sua interrogação. Mas só o artista a conhece e a pode revelar aos outros para ela ser desses outros e a verdade do ser se lhes iluminar. Escrever bem. Ser sensível ao que se quer revelar e ser só a sua revelação. E o mundo existir porque ele o revelou. 
(Vergílio Ferreira, Pensar)

Tinha dezassete anos quando o li pela primeira vez. Ou, pelo menos, quando se me revelou. E essa leitura marcou-me de uma forma tão profunda, que determinou de certo modo a escolha do caminho, porque me levou a decidir em definitivo que queria estudar literatura.
Escritor, ensaísta, professor, de personalidade forte e humor mordaz, dele se diz que morreu a escrever, aos oitenta anos, e que quis que o seu caixão ficasse virado para a Serra da Estrela, que ele tanto amava. Verdade ou não, o que importa é o que nos fica: uma obra imensa que, goste-se muito ou não se goste nada, ocupa um lugar central na literatura portuguesa do século XX. É, por isso, incompreensível e imperdoável que tenha sido retirado dos programas de Português do Ensino Secundário...
Vergílio Ferreira faria hoje cem anos. E, para mim, será sempre um dos melhores.

Sem comentários:

Enviar um comentário